Ilustração do livro "A mecanicânica do coração"



















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Técnicas de Ilustração

Teoria das Cores;
Técnicas com:
• lápis colorido,
• aquarela,
• hidrocor,
• pastel seco,
• guache,
• mista,
• nankin,
• caneta tipo pantone.
Estudo e interpretação do caimento diferenciado dos tecidos e texturas;
Técnica de sombra, luz e transparência ;
Composição;
Colagem.

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A Mecanica do Coraçao

A assinatura é curiosa: DOUTORA Madeleine. E imaginava-a mais tagarela. Provavelmente quis poupar o mensageiro. Mando a ave de volta imediatamente:

Manda me cartas grandes por correio normal porque, provavelmente, vou ficar uns tempos por aqui. Tenho saudades tuas. Preciso de ler mais do que algumas cartas agarradas à pata de um pássaro. Por aqui esta tudo bem, ando a viajar um relojoeiro-prestidigiador que está sempre a verificar o bom funcionamento do meu coração.
A polícia tem-te deixando em paz? Responde me depressa!
Um beijo,
Jack
P.S: Extraordinarium, 7 calle Pablo Jardim, La Cartura, Granada.

É meia-noite. Pareço um imbecil, de tão feliz que me sinto. Vesti uma camisola azul-eléctrica na esperança de realçar o verde dos meus olhos. O comboio-fantasma está silencioso.
Meia-noite e vinte. Nada. Meia-noite e meia e ainda nada de Miss Acácia. Uma hora menos vinte. O meu coração arrefece, o tiquetaque diminui.
- Ei!
- Estou aqui…
A pequena cantora está na plataforma, como que em equilíbrio no capacho da entrada. Até a sua sombra projectada na porta é sensual. Faria tudo para a ter nos meus braços!
- Sem querer, vesti me como tu!
Miss Acácia usa uma camisola quase igual á minha.
- Peço desculpa, mas não tive tempo de arranjar uma roupa adequada. Pelos vistos aconteceu o mesmo contigo!
Aceno com a cabeça, sorrindo, se bem que esteja vestido com a minha roupa mais elegante.
Não consigo deixar de lhe o movimento suave dos lábios e sinto que ela reparou. Os silêncios entre as palavras aumentam e ela começa a ouvir os sons produzidos pelo relógio.
- Tens muito sucesso no comboio-fantasma. As raparigas saíram todas de lá de sorriso nos lábios – diz ela subitamente, decapitando o anjo que passa.
- Não é bom sinal porque é suposto assustar para sobreviver…
Quer dizer, para conservar o emprego.
- Não interessa se fazes rir ou chorar, desde que provoques emoção, não?
- A velha disse-me que não é bom para a imagem do comboio-fantasma as pessoas saírem de lá a rir. Acho que vou ter de aprender a assustar se quiser continuar a trabalhar aqui.
- Assustar é uma maneira como qualquer outra de seduzir, e no que diz respeito ah sedução, tu desembaraças-te bem.
Apetece-me dizer-lhe que tenho uma prótese no lugar do coração e que não percebo nada do amor. Mas percebo que ela sente que o que esta a acontecer é novo para mim. Sim, tive algumas aulas de feitiçaria cor-de-rosa com um ilusionista, mas unicamente com o objectivo de chegar a “ela”; seduzi-la sem que ela me tomasse por sedutor. A dosagem é delicada. De repente respondo:
- Gostava que nos abraçássemos.
Silêncio, outro amou de boneca mimada e pálpebras cerradas.
- Depois podemos falar de tudo isso, mas por agora podemos abraçar-nos?
Miss Acácia pronuncia um pequeno “esta bem” que mal lhe passa pelos lábios. Um silêncio terno envolve os nossos gestos. Ela aproxima-se, a cambalear um pouco. De perto ainda é mais bonita do que a sombra que projectada na porta – e também mais intimidante. Rezo a um deus que não conheço para que o meu relógio não se ponha a tocar.
Os nossos braços apressam-se a juntar-nos num longo abraço; as nossas peles misturam-se. O relógio incomoda-me e não me atrevo a encostar demasiado o meu peito ao dela. Não quero meter-lhe medo com este coração improvisado. Mas como hei-de fazer para não assustar este pintainho de mulher quando me saem dos pulmões dois ponteiros aguçados? O pânico mecânico põe-se de novo em marcha.
Tento mantê-la uma pouco afastada do lado esquerdo do meu peito, como se o coração fosse de vidro, o que complica a nossa dança, dado que ela parece ser a campeã do mundo de tango. O volume do meu tiquetaque aumenta cada vez mais. As recomendações de Madeleine vêm-me à memória. E se eu morresse antes sequer de a beijar? Assalta-me uma sensação de salto no vazio, a alegria de voar, o medo de me estatelar no chão.
Os dedos de Miss Acácia acariciam-me o pescoço e os meus perdem-se algures por baixo das suas omoplatas. Tento ligar o sonho à realidade, mas estou a trabalhar sem máscara. As nossas bocas aproximam-se. O tempo abranda, quase pára. Os nossos lábios completam-se, misturam-se delicada e intensamente. A sua língua parece um pardal a eclodir-me na boca e, curiosamente, sabe a morango.
Vejo-a a esconder os olhos enormes por baixo das pálpebras-sombrinhas e sinto-me um halterofilista das montanhas, os Himalaias no braço esquerdo e as Montanhas Rochosas no direito. Atlas é um pobre anão comparado comigo. Uma alegria gigante inunda-me! O comboio faz ressoar os seus fantasmas a cada um dos nossos gestos. O som de passos no soalho envolve-nos.
- Silêncio! – berra uma voz acre.
Separou-nos em sobressalto. Acorda-mos o monstro de Loch Ness. Sustemos a respiração.
- És tu, anão? Que andas a fazer a esta hora nos carris?
- À procura de ideias para assustar.
- Procura em silêncio! E não toques nas minhas caveiras novas!
- Está bem…
Assustada, Miss Acácia abandona-se ainda mais nos meus braços. O tempo parece ter parado, e eu não tenho vontade nenhuma que ele volte a correr. A tal ponto que me esqueço de manter o meu coração afastado do dela. A pequena cantora faz uma careta quando me pousa a cabeça no peito.
- Seja o que for que tens aqui debaixo, pica!
Não respondo, mas sinto os suores frios do falsário desmascarado. Considero a possibilidade de lhe mentir, de inventar alguma coisa, de a enganar, mas há tanta sinceridade na sua exclamação que não consigo, e abro lentamente a camisa, botão a botão. O relógio aparece com o seu tiquetaque ainda mais sonoro. Espero pele sentença. Miss Acácia aproxima a mão esquerda e sussurra:
- O que é isso?
A compaixão que emana da sua voz dá-me de cair á cama até ao fim dos seus dias só para a ter á cabeceira como enfermeira. O cuco põe-se a cantar e ela sobressalta-se. Dando uma volta à chave, murmurou:
- Desculpa. É o meu segredo. Gostava de to ter contado mais cedo, mas tive medo de te assustar de vez.
Explico-lhe que o relógio me serve de coração desde o dia em que nasci, mas não lhe digo que o amor – assim como a cólera – me é vivamente desaconselhado, por motivos de incompatibilidade orgânica. Ela pergunta-me se os meus sentimentos mudariam se eu trocasse de relógio ou se se trata apenas de um procedimento mecânico. Uma malícia estranha, como se tudo aquilo a divertisse, ilumina-lhe a voz. Respondo-lhe que a mecânica do coração não pode funcionar sem emoções, mas sem me aventurar mais num terreno que considero escorregadio.
Ela sorri, como se eu lhe estivesse a explicar as regras de um jogo delicioso. Nada de gritos de horror, nada de risos. Até agora só Artur, Luna ou Méliès não ficaram chocados com o meu relógio-coração. Para mim, é um acto de amor muito importante esta maneira de ela me dizer “Tens um cuco no meios dos ossos? E depois?”. Muito simplesmente, tão simplesmente…
Mas é melhor não me deixar embalar demasiado. Talvez o relógio seja menos repugnante aos seus olhos defeituosos.
- É prática, essa máquina. Se, como todos os homens, te cansares de mim, eu posso tentar substituir-te o coração antes que me substituas por outra.
- Beijámo-nos pela primeira vez há exactamente trinta e sete minutos, pelo relógio do meu coração. Penso que ainda é cedo para começarmos a pensar nessas coisas.
Até os seus ares de durona começam a ter um tom afectuoso.
Acompanho Miss Acácia em passo de lobo. Abraço-a como um lobo e desapareço como um lobo.
Acabo de abraçar a rapariga de língua de pássaro e nada mais será como dantes. O meu relógio palpita como um vulcão impetuoso, mas não me dói nada. Enfim, sinto uma pequena pontada, mas digo para mim que após uma bebedeira de alegria tão grande, é um preço bem barato a pagar. Esta noite vou até à lua, instalo-me nela como numa rede e não vou precisar de dormir para sonhar.

8.

No dia seguinte Brigitte Heim acorda-me com a sua voz de feiticeira sem magia.
- De pé, anão! E vê se hoje tratas de assustar as pessoas, ou ponho-te a andar sem te pagar.
A sua voz avinagrada, logo de manha, dá-me vómitos. Estou de ressaca amorosa; é um despertador violento.
Não terei misturado demasiado os meus sonhos com a realidade ontem à noite? Terei direito a todo aquele fulgor na próxima vez que nos virmos? Basta a ideia para me irritar o relógio. Tenho consciência de que estou a ir contra as advertências de Madeleine. Nunca me senti tão feliz e angustiado ao mesmo tempo.
Vou ter com Méliès para que ele me veje o relógio.
- O teu coração nunca funcionou tão bem, meu rapaz – assegura me ele. – Vê-te ao espelho quando pensares no que aconteceu ontem à noite; verás nos teus olhos que o barómetro do teu coração esta muito calmo.
Durante todo o dia flutou no comboio-fantasma enquanto penso que logo à noite poderei voltar a brincar aos alquimistas.
Só nos vemos de noite. A sua vaidade orgulhosa serve-me de aviso da sua chegada, porque ela vai sempre contra qualquer coisa. É a sua maneira de bater à porta do comboio-fantasma.
Amamo-nos como dois fósforos vivos. Não falamos, inflamamo-nos. Não nos beijamos, incendiamo-nos; o meu corpo transformou-se num tremor de terra de um metro e setenta de altura. O meu coração evade-se do seu invólucro-prisão, foge pelas artérias, instala-se por baixo do crânio para se transformar em cérebro, instala-se em cada músculo, chega-me às pontas dos dedos. Um sol feroz que me invade o corpo. Uma doença cor-de-rosa com reflexos vermelhos.
Já não posso passar sem a sua presença, sem o odor da sua pele, sem o som da sua voz, sem a maneira delicada de ser a rapariga mais forte e frágil do mundo, a sua mania de não pôr os óculos para ver o mundo através da névoa da sua visão defeituosa, a sua maneira de se proteger. Ver sem ver e, sobretudo, sem se fazer notar.
Descubro a estranha mecânica do seu coração. Miss Acácia funciona com um sistema de concha autoprotectora ligada a uma abissal falta de confiança. Uma ausência de auto-estima em luta permanente com uma determinação fora do comum. As faíscas que a pequena cantora produz ao cantar são fragmentos das suas próprias falhas. Miss Acácia é capaz de as projectar em palco, mas quando a música pára, perde o equilíbrio. Ainda não encontrei a engrenagem partida do seu sistema.
O código de entrada do seu coração muda todas as noites. Por vezes a concha é tão dirá como uma rocha. Por mais combinações em forma de carícia e de palavras consoladoras que tente, fico á porta. Mas gosto tanto de quebrar essa concha, de ouvir aquele pequeno ruído quando ela cede, de lhe ver as covinhas nos cantos dos lábios que parecem dizer “Diz-me coisas doces!”. O sistema de protecção desfaz-se doces estilhaços.

- Precisava de um manual que me ensinasse a domesticar uma brasa! – digo eu a Méliès.
- Um compêndio de alquimia, queres tu dizer…Ah ah! As brasa não se domesticam, meu rapaz. Estás a ver-te tranquilamente instalado em tua casa com uma brasa numa jaula? Ela arderia e tu ficarias esturricado. Nem sequer te poderias aproximar das grades.
- Eu não queria metê-la numa jaula, só quero dar-lhe mais confiança em si mesma.
- É nisso mesmo que consiste a alquimia absoluta!
- Digamos que sonhava com um amor do tamanho da colina de Arthur’s Seat e que o que tenho é uma cadeira de montanhas que não pára de crescer.
- É uma sorte excepcional, sabes? Pouca gente chega sequer perto de experimentar esse sentimento.
- Talvez, mas agora que lhe tomei gosto, não posso passar sem ele! E quando ela se fecha, fico totalmente desarmado.
- Contenta-te em aproveitar os momentos em que sentes esse amor. Eu também conheci uma brasa e posso dizer-te que essas raparigas são como o clima nas zonas montanhosas: imprevisíveis! Por mais que Miss Acácia te ame, nunca conseguirás dominá-la.

Amamo-nos em segredo. Juntos, temos trinta anos. Ela é a pequena cantora célebre desde a infância e eu sou o estrangeiro que trabalha no comboio-fantasma.
O Extraordinarium funciona como uma aldeia. Toda a gente se conhece e a fofoca multiplica-se. Há os ciumentos, os sensíveis, os moralistas, os mesquinhos, os corajosos e os intrometidos com boas intenções.
Por mim não ligava nenhuma às más-línguas e às opiniões alheias, só para a poder beijar à vontade. Miss Acácia, contudo, recusa sempre, categoricamente, a ideia de alguém saber o nosso segredo.
No início a situação convinha-nos; sentíamo-nos como amantes clandestinos, e a sensação mágica de nos evadirmos do mundo fortalecia os nossos sentimentos.
Mas quando um grande amor se confirma, depois do fulgor inicial, é como um paquete que desembarca numa banheira. Precisa de espaço, de cada vez mais espaço… Por mais que nos deliciemos com a lua, queremos também o sol.
- Vou beijar-te em frente de toda a gente, não temos nada a temer.
- Eu também gostava de te beijar em pleno dia e fazer as coisas que toda a gente faz, mas enquanto ninguém nos vir, estamos a salvo das bisbilhotices. Nunca mais teremos paz se as pessoas como Brigitte Heim descobrem o nosso segredo.
Evidentemente, o açúcar das palavras doces que ela me oferece é saboroso e apetece-me levá-las à boca, mas suporto cada vez menos ter de a ver escapar-se pelos interstícios da noite quando a aurora se aproxima. As agulhas dos seus saltos, que marcam o tempo do seu afastamento, despertam as minhas insónias. Fico com dores nas costas quando o dia nasce e os pássaros me dizem que tenho pouco tempo para dormir.

No espaço de alguns meses, o nosso amor aumentou e não se contenta em se alimentar unicamente dos seios da noite. Mandem-nos o sol e o vento, precisamos de cálcio para os ossos das nossas fundações, quero tirar a mascara de morcego romântico, quero o amor à luz do dia.

Quase um ano após os nossos primeiros ardores, a situação continua a não evoluir, para melhor ou para pior. Não consigo atenuar a angústia de Miss Acácia sente perante a ideia de nos expormos. Méliès aconselha-me a ser paciente. Estudo a mecânica do coração da minha pequena cantora com paixão, tento abrir lhe suavemente as fechaduras, mas algumas parecem fechadas para sempre.

A sua reputação de cantora ardente já ultrapassa o Extraordinarium. Gosto de ir ouvi-la cantar aos cabarés das cidades dos arredores, sentir o vento nos seus passos de flamenco. Chego sempre depois do inicio do espectáculo e eclipso-me antes do fim para que ninguém repare na minha presença regular.
Depois dos concertos, hordas de homens bem vestidos esperam á chuva para lhe oferecerem ramos de flores maiores do que ela, para a cortejar mesmo debaixo do meu nariz. Plantado na orla de uma floresta de sombras, não tenho o direito de me mostrar. Eles maravilham-se com o seu talento de grande pequena cantora, enquanto eu sou capaz de lhe sentir o fogo sagrado até nas pontas dos dedos, fogo que ela destila em todos os palcos que pisa. Encontro-me à margem da sua vida social. Ver brilhar os olhos de um grande grupo de homens de coração saudável aumenta a minha paixão. O reverso da medalha amorosa mostra os seus reflexos sombrios, descubro que também sinto ciúmes.
Para esta noite decidi tentar uma experiência para a conservar mais tempo na minha cama. Vou bloquear os meus ponteiros . só os porei de novo em movimento se ela me pedir. Madeleine proibia-me de lhes mexer com medo de que eu interviesse com o curso do tempo. Se a Cinderela tivesse um relógio no coração, tê-lo-ia bloqueado na meia-noite menos um minuto e teria brilhado toda a vida no seu baile.

Enquanto Miss Acácia calça as chinelas com a mão e se penteia com outra, bloqueio o ponteiro dos minutos. São quatro horas e trinta e sete minutos há um quarto de hora no relógio do meu coração quando o ponho de novo em movimento. Entretanto, a pequena princesa desapareceu no labirinto silencioso e Extraordinarium. Os primeiros pássaros da madrugada acompanham-me o som dos passos.
Gostaria de ter tido um pouco mais de tempo para lhe observar à vontade os tornozelos de pintainho, para lhe subir ao longo das barrigas das pernas aerodinâmicas até aos seixos cor de âmbar que lhe servem de joelhos. Depois seguiria ao longo das suas coxas entreabertas para pousar na mais suave das pistas de aterragem. Ali tornar-me-ia o maior acariciador, o maior beijoqueiro do mundo. Sempre que ela quisesse voltar para casa, far-lhe-ia o mesmo. Bloqueio temporário seguido de um curso de línguas não estrangeiras. Então poria de novo o mundo em movimento, ela sentir-se-ia desapontada e não conseguiria resistir à vontade de passar mais alguns minutos luminosos na minha cama. E durante os instantes roubados ao tempo, ela seria apenas minha.
Porém, este velho berloque, que sabe dizer-me as horas na perfeição, tiquetaqueando sem descanso durante as minhas insónias, recusa-se a ajudar-me na magia. Fico sentado na minha cama, sozinho, tentando atenuar as minhas dores de relógio, pressionando as engrenagens com os dedos. Ias ficar furiosa, Madeleine!

No dia seguinte de manhã decido visitar Méliès. O prestidigitador construiu um ateliê, no qual trabalha arduamente para tornar realidade o seu sonho de fotografia animada. Vou vê-lo quase todas as tardes, antes de ir para o comboio-fantasma. Surpreendo-o muitas vezes com as suas “queridas”, hoje uma morena de cabelos longos, amanhã uma ruiva pequena, enquanto continua a trabalhar na famosa viagem à lua que quer oferecer à mulher da sua vida.
- Tento curar-me deste amor proibido com colheradas da consolação, um remédio suave que arde um pouco por vezes, mas que me permite reconstruir-me a mim próprio. A feitiçaria cor-de-rosa virou-se contra mim. As coisas não funcionam sempre da mesma maneira, como te disse. Preciso de um pouco de reeducação antes de me lançar de novo nas grandes sensações. Mas não me tomes como exemplo continua a unir os teus sonhos à realidade, sem esquecer o mais importante: é por ti que Miss Acácia está apaixonada neste momento.

9.

Brigitte Heim ameaça despedir-me todos os dias se continuo a transformar o comboio-fantasma numa comédia, mas não passa a vias de facto por causa da afluência de clientes. Faço os possíveis para assustá-los, mas não consigo impedir que riam involuntariamente. Por mais que cante “Oh When the Saints” a coxear, como Artur, que parta ovos no reboldo do meu coração no silêncio da curva dos candelabros, que passe um arco de violino nas minhas engrenagens para tirar delas melodias rangentes e acabar a saltar de vagão para cair mesmo em cima dos joelhos das pessoas, não há nada a fazer, elas riem-se. Falho sistematicamente os efeitos-surpresa porque o meu tiquetaque ressoa no edifício todo, os clientes sabem exactamente quando vou surpreendê-los. Alguns, os que vêm regularmente, até sabem antecipadamente. Méliès, esse, acha que estou apaixonado de mais para assustar seja quem for.
Miss Acácia vem, de vez em quando, dar uma volta no comboio-fantasma. O tiquetaque do meu relógio soa mais forte sempre que a vejo instalar as nádegas de pássaro no banco de uma vagoneta. Dou-lhe alguns “incêndios” às escondidas, enquanto espero pelos nossos encontros nocturnos.

Vem, minha árvore florida. Esta noite, quando apagarmos a luz, vou pôr-te óculos nos rebentos. Com a ponta dos teus ramos chegarás à abóbada celeste e sacudirás o tronco invisível que sustém a lua, fazendo cair sonhos novos a nossos pés como flocos de neve tépida. Plantarás solidamente na terra as tuas raízes em forma de saltos de agulha. Deixa-me chegar ao teu coração de bambu, quero dormir a teu lado.

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